Discurso da noite eleitoral

Boa noite
A minha primeira palavra é de pesar pelas 15 vidas perdidas causadas pela catástrofe que nos atingiu; de condolências às suas famílias e de solidariedade total com quem ficou sem casa ou sem empresa; para quem ainda não consegue fazer uma vida normal, seja por falta de energia elétrica, de água, de telecomunicações, de estradas transitáveis; e para com as empresas com dificuldades em produzir e pagar salários.
A solidariedade dos portugueses foi heroica, mas a solidariedade dos portugueses não pode substituir a responsabilidade do Estado. Os 2,5 mil milhões de euros prometidos para a reconstrução têm de chegar ao terreno agora. Não aceitarei burocracias que impeçam a chegada dos apoios a quem já perdeu tanto ou mesmo tudo.
Visitarei as zonas afetadas para garantir que os apoios estão a chegar. Não vos esquecerei e não vos abandonarei.
A resposta à dor não é o grito, é o trabalho. E há muito trabalho a fazer. Precisamos de um país preparado, não de um país surpreendido. Temos de ser melhores na organização do que no improviso. Precisamos de organizar e planear melhor os recursos do país para que o Estado responda a tempo e horas às vítimas e às consequências dos fenómenos atmosféricos severos que cada vez serão mais frequentes.
Saúdo todos os portugueses que nestas condições difíceis foram votar, que afirmaram a sua cidadania e deram voz aos valores em que acreditam. Cada um, a seu modo, contribuiu para o fortalecimento da nossa Democracia. Os vencedores esta noite são os Portugueses e a Democracia.
Os portugueses por terem, em condições muito adversas, superado mais um desafio e afirmado a sua cidadania.
A Democracia porque o processo e o resultado evidenciam uma forte adesão aos valores democráticos e a afirmação de um Portugal plural, unido na sua identidade coletiva.
Esta vitória de Portugal e da Democracia resulta de um trabalho que devo saudar: de todos os portugueses que organizaram e concretizaram o processo eleitoral, nomeadamente os membros das mesas de voto. Também a todos os que deram o seu contributo para que muitos eleitores pudessem deslocar-se às mesas de voto. Às mulheres e aos homens da proteção civil, bombeiros, autarcas, militares, forças de segurança, trabalhadores das empresas privadas e funcionários da ação social. A todos e a todas o meu agradecimento emocionado.

Uma palavra para o meu adversário na segunda volta das presidenciais.
Como várias vezes o disse, como democrata, todos os que concorreram comigo neste processo eleitoral merecem o meu respeito.
Como futuro Presidente da República, acrescento que, a partir desta noite, deixámos de ser adversários e temos agora o dever partilhado de trabalhar por um Portugal mais desenvolvido e mais justo. A maioria que me elegeu extingue-se esta noite.
Hoje falo-vos com o coração cheio. Cheio de gratidão. Cheio de emoção. Cheio de responsabilidade. Quando olho para este momento, lembro-me de onde vim. recordo o menino de uma pequena vila do interior, filho de uma família simples, que aprendeu o valor do trabalho, da honestidade e da palavra dada. Lembro-me do jovem que acreditou que a política pode ser serviço, que a democracia pode mudar vidas; que Portugal merece sempre mais; que as pessoas merecem sempre melhor. Continuo a pensar igual; sou o mesmo de sempre. Sou um de vós. Um de nós.
Esta vitória não é minha, é nossa. É de cada pessoa que acreditou e tem esperança num país melhor; num Portugal moderno e justo, onde todos somos iguais nas nossas necessidades e diferentes nas nossas liberdades. Um país que avança sem deixar ninguém para trás.
Aceito com muita humildade e enorme emoção a confiança que os portugueses – em Portugal e na diáspora – acabam de me confiar: ser o seu Presidente da República. O Presidente de todos os portugueses. Dos que votaram em mim, dos que fizeram outra opção, dos que ainda não votaram e dos que optaram por não votar. A todos saúdo por igual, como Presidente eleito da República Portuguesa.
Agradeço a todos os que me acompanharam nesta caminhada: do cidadão mais anónimo, aos meus mandatários regionais, da diáspora, à Rita Saias e ao Renato Daniel (mandatários da juventude) até à minha mandatária nacional: a cientista Maria do Carmo Fonseca. Agradeço também aos diretores de campanha regionais, na diáspora, ao diretor nacional de campanha Paulo Silva e a todos os membros da equipa. Uma palavra especial para o André Abrão e para a equipa de jovens generosos e solidários que me acompanharam por todo o Portugal durante este último mês. Cumprimento as senhoras e os senhores jornalistas, que fizeram a cobertura da minha campanha pelo profissionalismo demonstrado. Permitam uma palavra especial para a Margarida e para os meus filhos Maria e António: como é bom sentir o vosso abraço. Obrigado por caminharmos juntos.

Cumprimento o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sublinho o seu trabalho em prol do nosso país, bem como o de todos os anteriores Presidentes: Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Mário Soares e António Ramalho Eanes. Cada um, no seu tempo e no seu estilo, serviu o nosso país com devoção e compromisso com o interesse nacional e com a democracia. Eu servirei Portugal com o mesmo compromisso e no meu próprio estilo.
Sou livre. Vivo sem amarras. Afirmei-o aqui nesta mesma sala no dia da apresentação da minha candidatura; Repito-o durante os largos meses desta campanha; Reafirmo-o hoje aqui e assim agirei durante os cinco anos do meu mandato. A minha liberdade é a garantia da minha independência.
E é em total liberdade que reafirmo
- a minha lealdade à Constituição da República, o nosso chão comum que nos permite viver em paz e em liberdade como comunidade, quaisquer que sejam as nossas ideias;
- a natureza independente da minha ação, tratando por igual todos os partidos políticos e parceiros sociais;
- a promoção de relações profícuas com o parlamento e com o Governo. Prometi lealdade e cooperação institucional com o Governo. Cumprirei a minha palavra.
Jamais serei um contra-poder, mas serei um Presidente exigente com soluções e com resultados. Não serei oposição, serei exigência. A estabilidade política que defendo é um meio para garantir condições de governabilidade, nunca um fim para manter tudo na mesma.
Findo um ciclo eleitoral de três eleições e quatro idas às urnas em apenas 9 meses, abre-se um novo ciclo de três anos sem eleições nacionais. Não há desculpas. Portugal tem uma oportunidade única para que os partidos políticos, o parlamento e o Governo encontrem soluções duradouras para resolver os graves problemas que enfrentamos: na saúde, no acesso à habitação, na criação de oportunidades para os jovens, no combate à desigualdade entre homens e mulheres, na diminuição da pobreza, na criação de riqueza e de melhores condições de vida para todos os portugueses. E no imediato, a urgência maior: planear e organizar eficazmente a resposta do Estado às tempestades e aos incêndios.
Não há tempo a perder. Os portugueses não perdoarão aos políticos, a todos os políticos, que desperdicemos os próximos três anos. Serei o impulsionador dessa mudança, para uma cultura de compromisso focada em soluções e na melhoria da vida dos portugueses. Comigo não ficará tudo na mesma. Devemos isso aos Portugueses.
Estarei vigilante: farei as perguntas difíceis e exigirei as respostas que o país precisa. Em Belém, os interesses ficam à porta. A transparência e a ética são inegociáveis. A palavra do Presidente terá peso. Não falarei por tudo e por nada, mas quando falar, será para defender o interesse público, garantir a independência nacional e assegurar as condições do exercido da nossa soberania.
Portugal já venceu tormentas piores. Temos a resiliência e a coragem para nos levantarmos de novo. Esperança não é ignorar os problemas, é acreditar que temos capacidade para os resolver juntos, unidos. Unidos seremos sempre mais fortes, diante de incertezas, das guerras e do exercício do poder da força.
O futuro constrói-se com lucidez e confiança nas nossas capacidades, nos nossos jovens e nas nossas empresas. Recuso a narrativa da decadência. Somos um país de talento, de trabalho, de inovação e de humanidade. O medo paralisa, a esperança constrói. Somos maiores do que qualquer crise. O futuro não se espera, faz-se. Portugal tem força para se levantar. Portugal tem todas as condições para ser melhor.
Um Portugal de esperança, um país de futuro.
Uma sociedade com diálogo e valorização intergeracional.
Uma sociedade plural e capaz de traçar e concretizar um desígnio nacional que nos una e nos motive.
Um país que saiba para onde quer ir e onde, todos os dias, os nossos esforços são dirigidos para alcançar esses objetivos.
A todos é exigida lealdade institucional e, para que não restem dúvidas, a minha primeira lealdade é para com os portugueses.
São as pessoas, são os portugueses que vivem no nosso país e na diáspora o norte da minha ação. Todos somos portugueses. Todos somos Portugal.
O meu compromisso com os portugueses foi aqui que começou.
Comprometi-me em procurar unir, em promover sinergias para criarmos um país de excelência e justo. Foi o ponto de partida, mas aspiro que seja muito mais do que o ponto de chegada. Desejo que se transforme num propósito assumido por todos.
É este compromisso que quero levar até ao fim, em cada gesto, em cada decisão e em cada propósito. Foi por isso que me candidatei. É por isso que serei Presidente. O Presidente de todos os portugueses para mudarmos Portugal.
Viva Portugal.





